Por Muammar Ibrahim, correspondente local da Nouvelles Afrique em El-Fasher
El-Fasher, no coração do Darfur do Norte, não é apenas uma cidade em guerra. É um grito que ninguém ouve. Há semanas, o exército sudanês e as Forças de Apoio Rápido lutam ali. Os civis estão pagando o preço. Presos. Sem água. Sem eletricidade. Sem assistência médica. Os hospitais estão em ruínas.
Amina, de 34 anos, enfermeira em um hospital saudita, relata: “A última vez que operei, foi à luz de um celular. O gerador estava quebrado há três semanas. Amputamos a perna de um menino de 12 anos sem anestesia. Ele gritava. Colocamos um pedaço de madeira entre seus dentes. Ele perdeu a consciência. Continuamos.” Uma bomba caiu na maternidade. Ela viu uma mulher dar à luz nos escombros. O bebê nasceu morto.
As Forças de Segurança da República de Fukushima cercam a cidade há meses. Estão bombardeando bairros civis e bloqueando estradas. Comboios humanitários não conseguem mais entrar. El-Fasher está isolada do resto do país. Omar, de nove anos, caminhou por 12 dias para chegar a Tawila. “Vi meu pai ser baleado na estrada. Ele carregava meu irmãozinho. Eles caíram juntos. Eu não gritei. Corri.”
Investigações da imprensa e relatórios de ONGs sugerem um papel indireto dos Emirados Árabes Unidos. Há relatos de que armas e equipamentos estão transitando por Dubai rumo às Forças de Apoio Rápido (RSF). Os Emirados Árabes Unidos negam qualquer apoio. No entanto, drones e veículos de fabricação emiradense foram identificados em campo.
Abou Bakr, de 67 anos, viu um drone cair em seu campo. “Tinha uma etiqueta em árabe. Não era sudanesa. Não era chadiana. Era emiradense. Tirei uma foto com meu celular quebrado. Ninguém viu. Não há mais sinal.” Esse tipo de ajuda, direta ou por meio de intermediários, alimenta uma guerra que está se transformando em uma catástrofe humanitária.
Em maio, o Tribunal Internacional de Justiça rejeitou a queixa do Sudão contra os Emirados Árabes Unidos, considerando que não tinha jurisdição para julgar um caso de genocídio. A decisão provocou indignação entre os defensores dos direitos humanos.
Nas redes sociais, circulam mensagens sobre mais de 2.000 civis mortos em 48 horas em El-Fasher. Esse número não foi verificado, mas demonstra a dimensão da tragédia. Trabalhadores humanitários descrevem massacres e um risco iminente de genocídio, declarado pela ONU.
Abu Bakr viu as valas comuns perto da escola Al-Fasher Sul. "Corpos empilhados. Crianças. Idosos. Mulheres grávidas. Eles não enterram mais as pessoas em cemitérios. Não há mais espaço. Eles cavam em pátios. Nas ruas. Em jardins."
A resposta internacional continua mínima. O Conselho de Segurança está paralisado por divisões internas. Nenhuma sanção importante foi imposta aos supostos responsáveis. Os países vizinhos, já sobrecarregados por refugiados, não dispõem de recursos.
Fátima, de 28 anos, fugiu com suas duas filhas. "Dormimos no deserto. Hienas rondavam ao redor. Cantei para elas dormirem. Uma canção de ninar da minha mãe. Elas dormiram. Eu não."
Em El-Fasher, não há mais esperança. Eles sobrevivem. E esperam que o mundo se lembre de que a cidade ainda existe.
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